A dependência não afeta apenas adolescentes e adultos, mas também crianças. Vários especialistas concordam que as crianças sofrem sobretudo com a dependência de ecrãs e podem até apresentar sintomas de abstinência. A boa notícia é que, na infância, a dependência do ecrã pode ser combatida com bastante sucesso. Como descobrir que o seu filho está dependente do telemóvel e do computador e o que fazer a respeito?
As redes sociais estão presentes nas nossas vidas há já algum tempo, mas só nos últimos anos se tornaram cada vez mais acessíveis também para crianças e adolescentes. O adolescente médio passa quase cinco horas por dia nas redes sociais, o que pode ter um impacto devastador na saúde mental e no bem-estar geral da criança. No entanto, os smartphones já podem ser usados por crianças a partir dos dois anos e a facilidade com que conseguem ligar um vídeo no YouTube ou fazer scroll no Instagram ou no TikTok é alarmante.
Se a criança preferir regularmente o tempo diante do ecrã em vez do contacto pessoal, pode dizer-se que está dependente. Por ecrã não entendemos apenas telemóveis, mas também tablets, computadores e televisores. A dependência do ecrã pode surgir devido à estimulação, e os dados mostram que as redes sociais aumentam rapidamente os níveis de dopamina. Este neurotransmissor, conhecido como a substância química que provoca uma sensação de bem-estar, está associado a comportamentos orientados para procurar recompensas.
Crianças, mas também adultos, dependentes do ecrã, vão-se envolvendo gradualmente tanto no tempo passado diante do ecrã que já não conseguem controlar. Passam mais tempo diante do ecrã do que tinham planeado, em detrimento de tudo o resto na sua vida. Quando não estão diante do ecrã, os seus pensamentos e emoções na vida real quase desaparecem e ficam obcecados com aquilo que vão ver quando pegarem no telemóvel ou quando se sentarem ao computador.

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Sinais de possível dependência
A dependência das crianças do ecrã manifesta-se por vários sinais e a presença de um deles, por si só, não significa que o seu filho esteja dependente. Observe os seguintes sinais, que podem indicar que o seu filho está dependente de ecrãs:
- Evitar experiências pessoais, como encontros com amigos, atividades desportivas e eventos familiares, em favor do tempo diante do ecrã.
- Irritabilidade ou explosões de raiva à medida que se aproxima o momento de proibição (por exemplo, se em casa houver uma regra de que os telemóveis não podem ser usados durante as refeições ou algumas horas antes de dormir, a criança começa a ficar nervosa e irritada quando percebe que esse tempo está a chegar).
- Usar o ecrã como uma ferramenta para regular as emoções (por exemplo, quando a criança está sob stress, pega no telemóvel).
- Perda de atenção e dificuldade de concentração durante o uso do ecrã (a criança não o(a) percebe quando fala com ela, porque está tão envolvida com o conteúdo no telemóvel que não se lembra do que lhe disseram, nem mesmo quando responde automaticamente).
- Faltar à escola.
- Sinais de ansiedade e depressão.
- Mudanças no peso, no bem-estar mental e/ou na atividade.
- Evitar marcos sociais típicos, como festas na escola, dormir em casa de amigos, férias em família e encontros com amigos.
Nas crianças mais pequenas, os pais também podem notar uma obsessão intensa com o ecrã, perda de interesse por outras atividades, frustração quando não podem usar ecrãs e dificuldades em interromper o uso. Também é importante prestar atenção quando a criança aumenta constantemente o tempo que passa diante do ecrã.
Atenção aos sintomas de abstinência
Se notou sintomas associados à dependência do ecrã no seu filho e tentou limitar esse tempo, provavelmente encontrou outro problema: sintomas de abstinência. Como a dependência do ecrã e das redes sociais tem um padrão semelhante ao do uso de substâncias viciantes, os especialistas concordam que, ao deixar, as crianças e os adolescentes podem vivenciar um período de abstinência. Entre os sintomas mais comuns associados à dependência de ecrãs estão:
- ansiedade
- inquietação
- tédio
- FOMO (fear of missing out), ou seja, o medo de que algo passe ao lado das crianças
- pensamentos compulsivos de verificar redes sociais e ecrãs
- alterações de humor
- irritabilidade
- sintomas físicos, mais frequentemente problemas de sono ou dores de cabeça.
Em crianças e adolescentes dependentes de ecrãs, também pode surgir um fenómeno chamado síndrome do telemóvel fantasma. As crianças que sofrem com esta síndrome verificam repetidamente os bolsos ou as malas e procuram o telemóvel, do qual sabem que não está lá.
Certamente vai alegrar-se com a informação de que os sintomas de abstinência não duram muito tempo e que os resultados positivos do tratamento da dependência do ecrã se tornam visíveis já após alguns dias. A melhoria manifesta-se por melhor sono, mais energia, redução dos sintomas de ansiedade e depressão, maior criatividade e, talvez o mais importante, as crianças voltam a demonstrar interesse pelo contacto pessoal e desejam participar em várias atividades.

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A dependência pode ser prevenida
Notou que o seu filho passa com o telemóvel na mão mais tempo do que é saudável e apresenta sinais de dependência? Não desespere, nada está perdido. A dependência do ecrã não é uma condição permanente e, com um pouco de paciência, consegue livrar-se dela. Além disso, também pode ser prevenida, pelo que a quantidade de tempo que as crianças passam diante do ecrã não precisa necessariamente evoluir para dependência. Então, como ajudar as crianças que sofrem com a dependência do ecrã?
Crie regras
Juntamente com as crianças, crie regras razoáveis e acordem quando e por quanto tempo a criança pode estar no telemóvel, tablet, computador ou diante da televisão. As regras devem ser realistas, o que significa que não deve limitar o uso do ecrã ao mínimo absoluto nem proibi-lo. Pode ajudar-se com aplicações que bloqueiam o uso do telemóvel após ultrapassar o tempo definido ou, em alternativa, acordar a configuração de um temporizador.
Na criação destas regras e, sobretudo, ao cumpri-las, ajuda muito se toda a família seguir as regras. Por exemplo, pode estabelecer a regra de que, durante as refeições, ninguém terá o telemóvel consigo e, em vez de televisão, ligará música. Muitas famílias também acharam útil reservar um lugar especial em casa, onde, antes de dormir, deixam os telemóveis e tablets e não os levam para o quarto.
Mostre às crianças que a vida existe também fora dos ecrãs
Não negamos que ser criança hoje é difícil. Depois de um longo dia na escola, até as crianças querem desligar e, como primeira coisa ao chegar a casa, sentam-se em frente à televisão e pegam no telemóvel. Mostre às crianças que existem outras formas de descontrair e relaxar. Um passeio no bairro ou no parque, uma visita à biblioteca, um gelado com os colegas, caminhadas na floresta ou a participação numa equipa desportiva vão fazer com que as crianças larguem os telemóveis e se afastem do ecrã.
As crianças precisam de compreender que a vida e as atividades sem ecrãs não são uma forma de sofrimento e punição, mas sim um exemplo positivo de como ocupar o tempo livre. O movimento ao ar livre, a socialização, o desenvolvimento de competências e a descoberta de novos interesses e talentos são muito melhores do que perder tempo em ecrãs, que trazem apenas um pequeno benefício.
Aprendam a aborrecer-se
Sim, novamente o tédio. O seu filho considera uma ida ao parque aborrecida e constrangedora? O tédio não é uma coisa má e certamente também já viu como, no início, uma atividade aborrecida se transforma em diversão cheia de memórias.
O tédio faz parte do desenvolvimento infantil e é do interesse do seu filho que ele se aborreça regularmente. O tempo não estruturado é a base da criatividade, da resolução de problemas, da resiliência emocional e do desenvolvimento de muitas funções. Incentive as crianças a, todos os dias, deixarem o telemóvel de lado, afastarem-se dos ecrãs e inventarem as suas próprias formas de passar o tempo livre.
Sejam exemplo
Crianças e adolescentes não são os únicos que estão habituados a passar tempo diante do ecrã. Pense quantas vezes durante o dia sem perceber, pega no telemóvel e abre automaticamente as redes sociais. Se quer curar o seu filho da dependência ou preveni-la, é importante que você mesmo evite a tentação de passar tempo diante do ecrã.
Tente limitar a verificação do telemóvel na presença das crianças e, se trabalha em casa, tente não verificar os e-mails após o horário de trabalho. Lembre-se de que nem todos os e-mails são urgentes, mesmo que pareça que sim. Quando se sentar no sofá, não ligue a televisão; em vez disso, pegue num livro ou num passatempo de palavras cruzadas e incentive as crianças a jogar jogos de tabuleiro ou a trabalhos manuais, que ocupam as mãos e afastam a necessidade constante de pegar no telemóvel.
Procure ajuda
Às vezes, a ajuda dos pais e a sua determinação em ajudar a criança não é suficiente. Se o seu filho sofre de dependência do ecrã ou tem sintomas de abstinência fortes e que não cessam, não tenha medo de levar a criança a um pediatra, a um psicólogo escolar ou a um terapeuta. Tentar ajudar o próprio filho não é vergonha, mas sim um sinal de força e amor.





